ENTREVISTA
Ellen Simone Paiva

Médica especializada em endocrinologia e nutrologia

Equipe Portal Orgânico
Valéria da Cruz Chiarinelli

O Portal Nutrição entrevista a Dra. Ellen Simone Paiva, Mestre em Medicina na área de Nutrição e Diabetes pela USP; Titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, SBEM e da ABRAN, Associação Brasileira de Nutrologia e Diretora Clínica do CITEN - Centro Integrado de Terapia Nutricional.

Portal Nutrição: Uma dieta adequada pode interferir positivamente melhorando os sintomas da tensão pré-menstrual? De que forma? Quais os alimentos que podem intensificar ou aliviar esses sintomas?
Ellen Simone Paiva: A tensão pré-menstrual ainda é motivo de muita polêmica e quando uma doença tem tantas modalidades de tratamento é porque ela ainda não tem tratamento. Todas as mulheres têm, ao longo do mês, uma grande oscilação hormonal, mas algumas, por algum motivo, sofrem muito e não sabemos explicar o porquê. Após a menstruação, os hormônios femininos se elevam progressivamente até o meio do ciclo, quando ocorre a ovulação, então eles caem progressivamente até que ocorra uma nova menstruação. Por que algumas sofrem tanto na fase pré-menstrual ainda faz parte de nossa ignorância médica, mas provavelmente é porque algumas são mais sensíveis à queda hormonal. O mesmo acontece no pós-parto com a queda abrupta dos hormônios placentários e no climatério, quando há uma redução progressiva e irreversível na produção dos hormônios femininos. O que sabemos são constatações que nem podemos explicar. Dessa forma, algumas mulheres têm sintomas pré-menstruais menos intensos quando comem alimentos naturais e evitam alimentos gordurosos como queijos gordos, embutidos e chocolates.

Portal Nutrição: Que outras condutas, não alimentares, podem ajudar no alívio da TPM? Suplementos alimentares podem oferecer bons resultados?
Ellen Simone Paiva: Há medicamentos que vêm sendo utilizados com efeito variável como diuréticos leves, antidepressivos e ansiolíticos, na dependência do sintoma que predominar. Os anticoncepcionais também podem alivias a TPM principalmente por alívio das cólicas menstruais. Muito eficazes são os anticoncepcionais de uso contínuo ou dispositivos como implantes subcutâneos ou intra-uterinos que bloqueiam as oscilações hormonais e as menstruações, aliviando os sintomas relacionados às oscilações hormonais. Não há suplementos alimentares capazes de aliviar a TPM.


Portal Nutrição: E com relação à menopausa, a soja pode mesmo tornar-se um aliado para seu tratamento?
Ellen Simone Paiva: A soja é a principal fonte de certas substâncias chamadas isoflavonas. Algumas delas são muito semelhantes à estrutura química do hormônio feminino, daí a denominação de fitoestrogênio, o estrogênio oriundo de vegetais. Essa descoberta causou uma grande esperança, no sentido do uso desses compostos na prevenção das doenças relacionadas à queda do hormônio feminino no climatério como as ondas de calor, a insônia, a perda de massa mineral óssea, a atrofia urogenital, a elevação do colesterol e a conseqüente doença cardiovascular. A interferência das isoflavonas nos sintomas mais desconfortantes do climatério, que são as ondas de calor ou fogachos, é muito estudada, mas os resultados são polêmicos. Nos últimos 10 anos, a maioria dos estudos tem revelado que as isoflavonas não favorecem o perfil lipídico, não melhoram as ondas de calor e a perda da massa óssea, bem como não reduzem o índice de fraturas. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia já elaborou um consenso e para nós, a soja não tem nenhum efeito benéfico nos sintomas climatéricos nem na osteoporose. Essa afirmação é baseada em estudos científicos muito sérios e publicados em revistas médicas da mais alta credibilidade. Logo, não há vantagem alguma na troca do leite de vaca, a mais importante fonte de cálcio da dieta, pelo leite de soja com alegação de que isso ajudaria na prevenção da osteoporose. Por outro lado, muitos produtos de soja podem ser benéficos à saúde geral e cardiovascular, devido ao seu alto teor em gorduras poliinsaturadas, fibras, vitaminas e minerais e ao seu baixo conteúdo de gordura saturada.


Portal Nutrição: Quem pode e quem não pode usar a isoflavona? Ela pode substituir a terapia de reposição hormonal ou não. Em que casos e com que idade começar?
Ellen Simone Paiva: Como descrito anteriormente, as isoflavonas não são uma unanimidade e para a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia ela não pode substituir a terapia de reposição hormonal em nenhuma ocasião. Aliás, a polêmica é mundial. No início de 2006, a Sociedade Americana de Cardiologia, publicou seu último consenso na revista "Circulation" e também eles reviram seus conceitos e voltaram atrás nas recomendações de uso de soja para prevenção cardiovascular.

Portal Nutrição: Você poderia nos explicar por que ao entrar na menopausa, a mulher perde massa magra (músculo) e começa acumular mais gordura. Há algum tipo de dieta indicada que possa auxiliar para amenizar esta perda?
Ellen Simone Paiva: A redução hormonal felizmente é um processo fisiológico e lento. Muitas vezes, plenamente contornável sem a reposição hormonal. A perda de massa muscular é um processo também fisiológico do envelhecimento e não somente feminino. Aliás, é muito mais notado no homem, pois esse tem naturalmente uma massa muscular muito maior do que a mulher. A influência hormonal na definição no volume de massa muscular é muito mais relacionada ao hormônio masculino do que feminino. No climatério, a mulher sofre redução não somente em seu hormônio feminino, mas também em seu hormônio masculino e isso pode definitivamente participar do processo de perda de massa muscular, além dos processos naturais do ato de envelhecer.

Portal Nutrição: Em quais casos são indicados reposições hormonais e você acha que é possível passar pela menopausa sem recorrer a esses métodos? Caso positivo, de que forma?
Ellen Simone Paiva: A terapia de reposição hormonal era quase uma unanimidade e inicialmente indicada para todas as mulheres no climatério, desde que não houvesse a concomitância com o câncer de mama e doenças vasculares, até cerca de 10 anos atrás. Nessa época, uma publicação científica nos fez rever esse conceito, pois revelava a maior incidência de câncer de mama e até doenças cardiovasculares e derrame cerebral em mulheres submetidas a esse tipo de reposição hormonal. Hoje, em alguns países, para uma mulher se submeter à terapia de reposição hormonal ela é obrigada a assinar um termo de responsabilidade. No Brasil, o consenso é pela avaliação individualizada de cada caso, pois sabemos que o uso do hormônio feminino não causa câncer, mas ele pode fazer desenvolver focos tumorais pré-existentes. A princípio, podemos perfeitamente passar pela menopausa sem tomar hormônios, principalmente nos caos assintomáticos ou de sintomas leves a moderados, principalmente quando sabemos que eles são transitórios. Quando a mulher tem sintomas de grande desconforto, como insônia, ondas de calor intensas, depressão, atrofia urogenital com infecções e lesões ginecológicas pela menor lubrificação vaginal e perda da defesa natural da mucosa urológica e genital e finalmente osteoporose, podemos optar pelo uso do hormônio feminino, desde que essa mulher não tenha contra indicações como lesões de mama suspeitas, casos de câncer de mama em familiares próximos, história de trombose em veias profundas dos membros inferiores e efeitos colaterais relacionados ao uso do hormônio. Caso haja contra indicações ao uso da medicação ou a mulher tenha sintomas climatéricos leves, podemos lançar mão de dieta balanceada e rica em cálcio, que possibilite alcançar e manter o peso ideal; praticar exercícios físicos aeróbicos e de resistência, que ajudam a manter a massa magra e prevenir a osteoporose; reduzir o consumo do álcool e interromper o fumo, que dificultam a manutenção da saúde em geral e a manutenção da massa óssea; usar medicamentos tópicos vaginais, que melhoram os sintomas atróficos tão desconfortantes e finalmente usar alguns medicamentos como antidepressivos, suplementos de cálcio e antirreabsortivos do cálcio ósseo. Suplementos vitamínicos e isoflavonas não têm efeito nessas pacientes, com exceção do largamente compreendido efeito placebo.


SERVIÇO:
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Endereço: Rua Vergueiro, 2564.
Conjuntos 63 e 64
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São Paulo-SP
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Atendimento: De segunda a sexta.
Horário: 08h30min às 18h30min horas
  
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